sábado, 3 de dezembro de 2022

Resenha de "O curioso caso de Benjamin Button" de F. Scott Fitzgerald.

 

O curioso caso de Benjamin Button – F. Scott Fitzgerald:

Coleção Folha grandes nomes da Literatura.

Obra linda e magnífica, assim como o filme também. Cheia de ironias pelo autor, que me fizeram dar boas gargalhadas. Com toda certeza, a obra é convidativa para se conhecer outras publicações do escritor.

Trata-se da história de vida de uma pessoa que ao invés de nascer bebê, nasce um velho de mais de 70 anos de idade. O pai, um rico empresário no setor de botões e uniformes, quando chega ao hospital se depara com a estranheza do médico, das enfermeiras e outros (as) sobre o estado de seu filho recém nascido. A revolta do Sr. Button é visível por não ter recebido uma criança “normal”. A família também o rejeita: avôs e avós e toda a cidade.

Após tentar estudar em Harvard, ele é expulso pelo professor que o recebe e por alunos e alunas revoltados (as) por entenderem que se tratava de um farsante. Tempos depois, Benjamin conhece a Srta. Hildegarde, por quem se apaixona, casa e tem um filho.

Com o passar do tempo, porém, as coisas iam se invertendo. Enquanto a Sra Hildegarde envelhecia, Benjamin rejuvenescia. E essa diferença nos hormônios e corpos de ambos, trouxeram diferenças irreconciliáveis. Enquanto ele estava se tornando um fanfarrão de festas, ela estava no tempo de se acalmar e aproveitar a beleza da vida em casa.

Chega o momento em que Benjamin quer retornar ao exército. Se alista, mas pela cara de criança que possui, tem chamado seu filho para buscá-lo no quartel, o que o faz passar por grande vergonha. O filho, Roscoe, já lhe chamara a atenção diversas vezes antes por outros motivos. Pouco tempo depois, nasce o neto de Benjamin, filho de Roscoe, que assume os negócios da família.

A idade avança e nosso velho Benjamin agora é uma criança que brinca com os brinquedos de seu neto. A babá do neto, também era a cuidadora de Benjamin. Ou seria sua babá também?

Com o passar do tempo, nossa velha criança já não se lembrava de mais muita coisa. Não lembrava da última refeição, do rosto das pessoas. Já não enxergava bem também. Somente sentia frio, calor, fome, sede e chorava...

Considerações:

Outra questão menos importante é: todos nós, de alguma forma, na velhice, voltamos a ser crianças. Voltamos a ser dependentes em alguma medida de outras pessoas, dos mais jovens muito provavelmente. Voltamos a ser dependentes de cuidados médicos, hospitalares, profissionais, entre outros. Voltamos a depender dos cuidados dos familiares que devem saber que um dia também serão velhos e serão dependentes de outros (as). A maturidade e a experiência da velhice, nos é reconfortante pela memória. É essa lembrança e experiência que nos diferencia dos jovens: passamos pelos erros que eles passaram. Erramos e podemos ajudar para que estes não errem. Mas somos ouvidos?

O livro também trata de preconceito, da vida difícil que as pessoas “rejeitadas” ou consideradas “anormais” vivem. Pode se entender aqui a difícil vida por que passa praticamente todas as minorias em todo o mundo: mulheres, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, trans gêneros, judeus, palestinos, negros, favelados, etc... todos sabem o que Button passa a vida toda nas suas próprias peles.

A obra é muito bonita, pois nos faz tentar entender o que é a vida. Nos ajuda a pensar em qual é a maior característica de estar vivo, do que é viver, das características de cada uma das fases que vivemos. O que nos define como humanos? Essa é outra pergunta que me veio a cabeça ao término do livro. A lembrança é a maior marca da vida. É a memória, a única coisa que levamos conosco até o nosso fim... e não por completo, mas provavelmente as coisas mais belas e importantes por que passamos. O que nos define como humanos é a capacidade de entender, interpretar, pensar e ter boas lembranças sobre nossas próprias memórias. A memória é o que temos de mais sagrado, de mais pessoal, de mais íntimo. É o registro do que fomos e somos, do que fizemos e deixamos de fazer. O que somos sem nossas memórias? Existimos ainda sem a memória? Talvez não. Talvez sejamos apenas como vegetais que não podem refletir e lembrar sobre nada do que passou em suas vidas. Viver a vida sem reflexão, é como não viver. É como vegetar. Existem humanos que são vegetais pois não lembram, não refletem, não pensam sobre si e sobre os outros. Como diria Sócrates, Adorno e tantos outros filósofos, cada um a seu modo, uma vida não refletida, não vale a pena ser vivida.



Pequena resenha de Maquiavel, O Príncipe.

 

Nicolau Maquiavel (1469-1527):

O Príncipe:

A leitura da obra foi realizada na edição da Coleção “Folha, Livros que mudaram o mundo”, mas a resenha foi retirada de cópia baixada pela Internet. As notas de rodapé, são referentes as páginas da obra da Folha de São Paulo.

Maquiavel inicia a discussão de como um príncipe deve manter o seu reino e sua nova conquista. Nunca deve basear seu poder nas mãos de outras pessoas. Sempre precisa estar diretamente ligado aos detalhes ou a própria existência do Governo.

Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha: quem é causa do poderio de alguém arruína-se, por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são suspeitas para aquele que se tornou poderoso.1

O curioso é que a primeira impressão, imagina-se que o autor faz seus aconselhamentos baseados em opiniões próprias ou achismos, o que no decorrer da obra percebe-se não ser verdade. Todas as suposições ou conselhos são baseados em fatos históricos que o precederam. (pg 18). Isso demonstra algo diferente até então nas clássicas obras de política do mundo Ocidental. Antes, praticamente todas as grandes obras, se baseavam em opiniões, argumentações ou achismos sem fundamentação empírica, histórica, prática ou real. Eram projetos, idéias, teorias, entre outros. Maquiavel neste ponto parece se aproximar dos futuros empiristas ingleses que tendiam a se basear muito mais nas experiências práticas do que nas idéias.

Contudo, nas repúblicas há mais vida, mais ódio, mais desejo de vingança; não deixam nem podem deixar esmaecer a lembrança da antiga liberdade: assim, o caminho mais seguro é destruí-las ou habitá-las pessoalmente.2

Apesar das críticas, Maquiavel demonstra-se um fiel Republicano. Maquiavel traz consigo aquela idéia do homem que se esforça na vida ou no trabalho e que deve ser recompensado por tal esforço. Aparentemente o que se entende disso é que ele traz consigo os valores do homem liberal, da vontade de ser esforçado e de vencer na vida por méritos próprios, o que constitui a idéia do self made man.

Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em príncipes, com pouca fadiga assim se transformam, mas só com muito esforço assim se mantêm: não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a vôo; mas toda sorte de dificuldades nasce depois que aí estão. São aqueles aos quais é concedido um Estado, seja por dinheiro, seja por graça do concedente.3

O uso da força para conquistar um Estado ou o uso de favor de conterrâneos para mesma atividade não parece ser algo intolerável pelo autor. Não em seu tempo.

Ademais, se se considerar a virtude de Agátocles no entrar e no sair dos perigos e a grandeza de seu ânimo no suportar e superar as adversidades, não se achará por que deva ser ele julgado inferior a qualquer dos mais excelentes capitães; contudo, sua exacerbada crueldade e desumanidade, com infinitas perversidades, não permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres. Não se pode, assim, atribuir à fortuna ou à virtude aquilo que sem uma e outra foi por ele conseguido.4

Pode se dizer que a partir dessa nova forma de se conquistar o Estado ou de mantê-lo (utilizando-se do uso de muita força e até do terror contra a população), Maquiavel inicia o que poderia mais tarde se tornar uma ética de padrão diferenciado do padrão da Igreja e que as religiões impunham ao mundo naquele momento. Maquiavel é completamente racional na questão política e bastante prático: ele escreve uma obra para ser usada como livro de cabeceira dos reis naquele momento da história afim de ajudá-los a manter a mínima governabilidade se afastando dos credos do cristianismo no que toca as relações do poder e dos súditos. Ao escrever uma obra sem citação alguma de textos considerados sagrados ou outros tipos de referências teológicas cristãs, nosso autor demonstra coragem, autonomia e independência diante do pensamento dominante de então. Quando lhe acusam de ser o pai da idéia de que os fins justificam os meios, percebe-se um grande equívoco neste argumento. Maquiavel respeita as regras do jogo.

O uso da violência para garantir a governabilidade deve ser aceito pelo Príncipe. As crueldades não podem ser esquecidas ou deixadas de lado. Mas devem ser feitas de uma única vez para não fazer o povo entender como castigo eterno. Portanto, não deve-se estender por muito tempo.

Penso que isto resulte das crueldades serem mal ou bem usadas. Bem usadas pode-se dizer serem aquelas (se do mal for lícito falar bem) que se fazem instantaneamente pela necessidade do firmar-se e, depois, nelas não se insiste mas sim se as transforma no máximo possível de utilidade para os súditos; mal usadas são aquelas que, mesmo poucas a princípio, com o decorrer do tempo aumentam ao invés de se extinguirem.5

As forças de uma pátria, principado ou de uma Cidade Estado, aparentemente são medidas pelo autor de acordo com o grau de esforço e sacrifício de um povo ao defender seu principado e seu soberano. (pg 28 e 29).

Armar os Estado com exércitos próprios é dar vida longa e segura ao povo e ao poder. Ao dizer que determinados povos são livres pois possuem exércitos nacionais, Maquiavel demonstra claramente qual a importância das armas para a existência e manutenção dos governos em um mínimo funcionamento necessário à sociedade. Esse ponto de vista vai de encontro também ao que escreve o inglês Thomas Hobbes em sua obra O Leviatã. (pg 31).

Conclui pois Maquiavel, que , para se ter um mínimo de segurança, é necessário ter um exército próprio, pois, confiar em tropas auxiliares é péssimo, em mercenários é ruim e em tropas mistas também não é bom, o que garante para o autor o uso de exércitos do próprio Estado.

Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe defende o seu Estado, ou são suas próprias ou são mercenárias, ou auxiliares ou mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e, se alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias, jamais estará firme e seguro, porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis; galhardas entre os amigos, vis entre os inimigos; não têm temor a Deus e não têm fé nos homens, e tanto se adia a ruína, quanto se transfere o assalto; na paz se é espoliado por elas, na guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas não têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a não ser um pouco de soldo, o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir embora.6

É o uso das armas que garante governabilidade ao Príncipe:

Por experiência se vêem príncipes sós e repúblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se vêem tropas mercenárias não causarem mais do que danos. Ainda, uma República armada de tropas próprias se submete ao domínio de um seu cidadão com muito maior dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas mercenárias ou auxiliares.7

Ao entrar na discussão se deve o Príncipe ser amado ou temido, diz que deve-se usar ambas as ferramentas com o povo e, não sendo possível utilizar as duas, o Príncipe deve preferir ser temido. O autor demonstra neste momento uma noção de ser humano que também parece se assemelhar a de Thomas Hobbes. (pg 38).

Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra; mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se.

E logo adiante continua:

Deve o príncipe, não obstante, fazer-se temer de forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio, mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido e o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e, em se lhe tornando necessário derramar o sangue de alguém, faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio.8

Também deixa claro que deve evitar ser odiado pelo povo. Também diz que se fores comedido com o dinheiro do povo, será amado pelo mesmo pois não cobrará mais impostos. Caso ocorra o contrário, poderá ser odiado.

Em trecho seguinte defende a idéia que todo governante deve saber usar da força e da inteligência (das Leis) para governar. É essencial carregar consigo uma das duas naturezas afim de manter sempre o povo temente ao seu poder.

O uso da dissimulação, quebra de contrato ou outros métodos e táticas também pode ser usado pelo Príncipe para governar. Pois deve o governante ter a qualidade de leão e de raposa. (pg 40).

Deveis saber, então, que existem dois modos de combater: um com as leis, o outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo, dos animais; mas, como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente, convém recorrer ao segundo. Portanto, a um príncipe torna-se necessário saber bem empregar o animal e o homem. Esta matéria, aliás, foi ensinada aos príncipes, veladamente, pelos antigos escritores, os quais descrevem como Aquiles e muitos outros príncipes antigos foram confiados à educação do centauro Quiron. Isso não quer dizer outra coisa, o ter por preceptor um ser meio animal e meio homem, senão que um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas: uma sem a outra não é durável. Necessitando um príncipe, pois, saber bem empregar o animal, deve deste tomar como modelos a raposa e o leão, eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos. É preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Aqueles que agem apenas como o leão, não conhecem a sua arte.

E continua:

Logo, um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra, quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la. Se todos os homens fossem bons, este preceito seria mau; mas, porque são maus e não observariam a sua fé a teu respeito, não há razão para que a cumpras para com eles. Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra. Disto poder-se-ia dar inúmeros exemplos modernos, mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tornadas írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes; e aquele que, com mais perfeição, soube agir como a raposa, saiu-se melhor. Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador: tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar.9

Para Maquiavel, todo governante deve carregar consigo 5 qualidades: piedade, lealdade, integridade, humanidade e religião. A última é a mais importante de todas para o autor pois acredita o mesmo que deve se demonstrar ser um homem bom para as pessoas, por isso demonstrar sua religiosidade. Mas o que também se entende é que homens bons, não precisam ser a fundo, pessoas religiosas (ou pelo menos aparentar ser) (pg 40). Ele finaliza este capítulo XVIII dizendo que o que importa são os fins quando não existem Tribunais para se recorrer. Ou seja, num mundo sem Lei e ordem, sem Estado ou onde as regras são a do vale tudo, aí sim, os fins justificam os meios. Caso contrário, existem regras a serem seguidas por todos. Quando o príncipe não tem mais saídas ou para onde apelar, os fins, aí sim, justificam os meios. (...) nas ações de todos os homens, em especial dos príncipes, onde não existe tribunal a que recorrer, o que importa é o sucesso das mesmas.10

Pouco adiante, nos remetemos a algo presente na realidade brasileira e que virou um grande escândalo, foram as palavras de Rubens Ricupero numa entrevista com o jornalista de TV Globo, Carlos Monforte, onde o embaixador diz: “o que é bom a gente mostra, o que é ruim, a gente esconde”. (Pg 42).

Daí pode-se extrair outra conclusão digna de nota: os príncipes devem atribuir a outrem as coisas odiosas, reservando para si aquelas de graça. Novamente concluo que um príncipe deve estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.11

E continua:

Concluo, portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações se o povo lhe é benévolo; mas quando este lhe seja adverso e o tenha em ódio, deve temer tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis têm com toda a diligência procurado não desesperar os grandes e satisfazer o povo conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de que um príncipe tenha de tratar.12

Maquiavel volta a questão de ser odiado ou não e por quem se deve ou não ser odiado. Diz que se deve evitar a cólera de grupos organizados da sociedade (tal como a classe dominante), mas acima de tudo, deve-se evitar o ódio do povo. E em algumas situações é importante se utilizar do saco de maldades. (Pgs. 43 e 45).

Ao retratar a questão das construções com que deve se preocupar o Príncipe, Maquiavel fala da inutilidade dos grandes castelos pois de nada adianta se cercar para se isolar do povo, pois quando esse é revoltado contra o governante, nada o detém. Por outro lado, Maquiavel está de acordo na construção de grandes muralhas que defendam as cidades e o povo.

Maquiavel finaliza o último capítulo na esperança de que um príncipe venha libertar a Itália da dominação dos Bárbaros. Faz exaltação da força do homem Italiano e de sua superioridade em força em relação aos demais homens europeus e do mundo. É saudosista e nacionalista defendendo o espírito bélico de um futuro exército Italiano em relação a Espanha, França e Suíça. Finaliza conclamando o povo Italiano a receber e a apoiar a vinda de um Príncipe salvador da Itália, um verdadeiro líder, um condottiere. É pena que o chamado de Maquiavel tenha demorado tanto a ser ouvido e tenha caído nos ouvidos do fascismo italiano personificado na figura de Benito Mussolini. Enfim, talvez este seja o grande objetivo da obra de Maquiavel, a de que seu livro se tornasse importante ferramenta de auxílio aos futuros príncipes Italianos, com o objetivo de fundar o Estado, a nação Italiana ou mesmo promover a unificação destes povos contra os elementos externos e invasivos.

1 O Príncipe. Maquiavel, Nicolau. São Paulo. Folha de São Paulo. 2010. Pg. 16.

2 Op. Cit. Pg. 18.

3 Po. Cit. Pg. 20.

4 Op. Cit. Pg. 24.

5 Op. Cit. Pg. 25.

6 Op. Cit. Pg. 30.

7 Op. Cit. Pg. 31.

8 Op. Cit. Pgs. 38 e 39.

9 Op. Cit. Pg. 40.

10 Op. Cit. Pg. 40 e 41.

11 Op. Cit. Pg. 42.

12 Op. Cit. Pg. 42.

domingo, 5 de junho de 2022

A desobediência civil. Henry David Thoreau.

A desobediência civil

Henry David Thoreau. Tradução de Sérgio Karam, Porto Alegre, Editora L&PM Pocket, 2002.


O melhor governo é o que governa menos”, aprimorada da seguinte expressão: “O melhor governo é o que absolutamente não governa” 1 iniciam uma das maiores obras literárias políticas da história de crítica ao autoritarismo do Estado. “Desobediência Civil” é considerada para alguns a bíblia dos anarquistas. Porém, como sabemos, os anarquistas não possuem bíblias e nem “Cristos”, o que nos faz entender também que em algumas passagens a crítica do autor mais se parece com o que nos Estados Unidos se chama por programas minimalistas, ou seja, daqueles que defendem a menor intervenção possível do Estado na Economia. Para os atuais anarco-capitalistas, nosso autor deve realmente ser uma bíblia. Mas não é somente a tais homens que a obra influência. Gandhi e tantas outras lideranças de militância pacifista se espelham no norte americano que foi preso por se recusar a pagar por seus impostos, mesmo tendo sido avisado diversas vezes de que isso iria acontecer.


Thoreau tem sua importância na luta contra o Estado. Ele faz durante boa parte da obra, uma crítica ao militarismo, a escravidão (até então vigente nos EUA), contra a existência do Estado e da autoridade constituída, entre outros. Thoreau também é contra a invasão e tomada do território Mexicano por parte do Exército dos EUA e mostra que isso deve custar o que for necessário ao seu país:


Este povo deve deixar de ter escravos e de fazer guerras ao México, mesmo que isso lhe custe sua existência como povo”.2


Um pouco anterior:


As objeções levantadas contra a existência de um exército permanente – e elas são muitas e fortes e merecem prevalecer – podem afinal ser levantadas também contra a existência de um governo permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente.” 3


Na página seguinte ele dá uma explicação que de certa forma nos faz pensar sobre o porque da existência dos governos.


Pois o governo é uma conveniência pelo qual os homens conseguem, de bom grado, deixar-se em paz uns aos outros, e, como já se disse, quanto mais conveniente ele for, tanto mais deixará em paz seus governados.” 4


Pra que pensar se pensam por nós? Pra que pensar se governam por nós mesmos? E não é por isso que elegemos os políticos? Para não pensarmos? Thoreau não fala em fim dos governos (pelo menos em determinado momento). Não se assume anti governista. Mas clama por um governo melhor.


A grande maioria dos homens serve ao Estado desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros da força civil, etc.” 5


Tal passagem nos lembra uma célebre frase de Chaplin: “Não sóis máquina! Homem é que sóis!” O Estado cria um exército de máquinas e não um exército de homens. Aparentemente, são seres que não valem mais do que cachorros ou cavalos, de acordo com a opinião do autor.


Percebe-se também influência que aparecerá em Stirner no futuro, já em nosso autor: “Aquele que se dá inteiramente a seus semelhantes parece-lhes inútil e egoísta; aquele, porém, que a eles se dá parcialmente é considerado um bem feitor e um filantropo.” 6 Também se percebe forte influência de John Locke em Thoreau quando o Britânico defende o “Direito de Resistência” aqui expresso como Direito de Revolução.


Todos os homens reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua tirania e sua ineficiência tornam-se insuportáveis.” 7


Defende o fim da escravidão e diz claramente que se os negros não se unirem e esperarem dos brancos a sua libertação, jamais serão alforriados. Dá a entender a famosa frase de fundação da Internacional: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Esta luta contra a escravidão está presente em toda obra.


Mostra que existe diferença de tratamento por parte do Estado entre ricos e pobres, dando claramente a entender que o Estado serve aos primeiros e explora os segundos. Defende claramente que burlemos a Lei caso a mesma nos obrigue a praticar injustiças:


Se um homem sem propriedade se recusa pela primeira vez a recolher nove xelins aos cofres do Estado, é preso por prazo cujo limite não é estabelecido por qualquer lei que eu conheça; esse prazo é determinado exclusivamente pelo arbítrio dos que o enviam à prisão. Mas se ele resolver roubar noventa vezes nove xelins do Estado, em breve estará novamente em liberdade.” 8


Continua:


Mas se ela for de natureza tal que exija que nos tornemos agentes de injustiça para com os outros, então propomos que violemos a lei.” 9


Pouco adiante, mas na mesma página ele sentencia: O mal está na própria existência ou na própria constituição do Estado.


Pouco depois defende Cristo como um anarquista que se opõe ao Estado e por isso fora morto.


Cristo respondeu aos seguidores de Herodes de acordo com a situação deles. "Mostrem-me o dinheiro dos tributos", disse ele; e um deles tirou do bolso uma moeda. Disse então Jesus Cristo: "Se vocês usam o dinheiro com a imagem de César, dinheiro que ele colocou em circulação e ao qual ele deu valor, ou seja, se vocês são homens do Estado e estão felizes de se aproveitar das vantagens do governo de César, então paguem-no por isso quando ele o exigir. “Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", Cristo não lhes disse nada sobre como distinguir um do outro; eles não queriam saber isso.” 10


Há seis anos que não pago o imposto per capita. Fui encarcerado certa vez por

causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o tempo passava, fui observando as paredes de pedra sólida com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro com um pé de espessura e as grades de ferro que dificultam a entrada da luz, e não pude deixar de perceber a idiotice de uma instituição que me tratava como se eu fosse apenas carne e sangue e ossos a serem trancafiados.” 11


Somos todos presos, escravo do Estado:


Vi que apesar da grossa parede de pedra entre mim e os meus concidadãos, eles tinham uma muralha muito mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres

quanto eu.” 12


Quem é criminoso? Quem está dentro ou fora das prisões? Onde está o perigo senão nas idéias? Não há como trancafiá-las.


Não pude deixar de sorrir perante os cuidados com que fecharam a porta e trancaram as minhas reflexões - que os acompanhavam porta afora sem delongas ou dificuldade; e o perigo estava de facto contido nelas.” 13


E então, abriu-se caminho para a vista. A névoa dissipa-se e conseguimos enxergar os olhos do Estado:


Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável.” 14


Pouco adiante Thoreau nos conta a respeito de suas lembranças na prisão e continua sua mordaz crítica ao Estado.


Na verdade, eu silenciosamente declaro guerra ao Estado, à minha moda, embora continue a usá-lo e a tirar vantagem dele enquanto puder, como costuma acontecer nestas situações.15


Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que ele venha a reconhecer no indivíduo um poder maior e independente - do qual a organização política deriva o seu próprio poder e a sua própria autoridade - e até que o indivíduo venha a receber um tratamento correspondente.16


Thoreau finaliza a obra dizendo que nunca encontrou um Estado perfeito, por mais que procurasse bastante para localizá-lo. Sinal de que o Estado perfeito não existe e jamais existirá.


Leituras – extraído da obra Walden:


Esta tradução de “Desobediência civil” pela Editora L&PM, Coleção Pocket, também traz trechos da obra “Walden” de Thoreau ao término. É uma crítica do autor a ausência de projetos educacionais e culturais nos EUA e da importância do ato de ler, estudar, se informar para construir um país melhor.


O autor também nos fala da importância dos livros e de que estes são o maior patrimônio de uma sociedade e a melhor forma de se transmitir os conhecimentos da mesma. Faz uma forte crítica a sociedade estado-unidense chamando a de imbecil e de responsável pela formação de homens medíocres. Finaliza dizendo que não adianta todo o investimento em infraestrutura se não se pensar na educação dos jovens e adultos e a criação de uma nação de letrados. Este seria para Thoreau um passo para a construção de uma sociedade mais justa.


A importância desta última obra acoplada a primeira é de extrema importância pois reflete a esperança de uma sociedade liberta e justa nos EUA. Apesar de se demonstrar pessimista em algumas ocasiões, talvez pela amargura da prisão, este trecho de “Walden” nos traz a esperança de um país melhor.

1 Op. Cit. Pg. 5.

2 Pg. 15.

3 Pg. 6.

4 Pg. 7.

5 Pg. 10.

6 Pg. 12.

7 Pg. 12.

8 Pg. 24.

9 Pg. 25.

10 Pg. 32.

11 Pg. 36.

12 Pg. 36.

13 Pg. 37.

14 Pg. 37.

15 Pg. 45.

16 Pg. 55.

Prefácio da 1ª Edição e Posfácio da 2ª Edição. O Capital, Karl Marx.

Prefácio da 1ª Edição e Posfácio da 2ª Edição.

O Capital, Karl Marx.

 

Desde a publicação da primeira edição do Livro I de “O Capital” em 25 de julho de 1867 à 24 de janeiro de 1873, publicação do Posfácio da segunda Edição, passaram-se exatamente 5 anos e 5 meses e 29 dias. Dez anos após a publicação do Posfácio da Segunda Edição, Marx morre em 14 de março de 1873, sem conseguir preparar a publicação da Terceira Edição Alemã e deixando para Engels a organização do segundo e do terceiro Volume de “O Capital”.


Engels mantêm por respeito a Marx, por respeito as normas técnicas padronizadas e usuais em todo o mundo da época, as medidas padrões da época (britânica) em todas as traduções seja para qualquer idioma que fosse traduzido. O próprio Engels explica que somente “havia na Alemanha tantos tipos de peso e medida quantos dias do ano; além disso, havia duas espécies de marco(...)duas espécies de florim e ao menos 3 de táler, das quais uma cuja unidade era o ‘novo dois terços’.”


Prefácio da 1ª Edição


Marx neste documento deixa claro que o Volume I da obra em questão é uma continuação de “Contribuição à Crítica da Economia Política”. Ele faz um estudo da natureza da mercadoria, do valor, do trabalho, da especulação capitalista, da mais-valia, e principalmente do “modo de produção capitalista e as suas relações correspondentes de produção e de circulação”.


Marx cita nesta obra a criação e desenvolvimento das categorias de análise:


Além disso, na análise das formas econômicas não podem servir nem no microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos.”


A presença do pensamento evolucionista é forte, Marx acredita que a classe operária britânica era o exemplo, a vanguarda das classes operárias mundiais:


O país industrialmente desenvolvido mostra ao menos desenvolvido tão somente a imagem do próprio futuro”


Uma nação deve e pode aprender das outras. Mesmo quando uma sociedade descobriu a pista da lei natural do seu desenvolvimento (...) ela não pode saltar nem suprimir por decreto as suas fases naturais de desenvolvimento.”


Posfácio da 2ª Edição


Para Marx o capitalismo era um estágio historicamente transitório da evolução:


À medida que é burguesa, ou seja, ao invés de compreender a ordem capitalista como um estágio historicamente transitório de evolução, a encara como a configuração última e absoluta da produção social, a Economia Política só pode permanecer como ciência enquanto a luta de classes permanecer latente ou só se manifestar em episódios isolados.”


Marx explica em sua fundamentação:


Meu método dialético não só difere do hegeliano, mas é também a sua antítese direta. Para mim, (...) o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem.”


Sobre a dialética hegeliana, finaliza:


É necessário invertê-la, para descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico.”

Pequeno fichamento com comentários sobre o capítulo IV de O Capital de Marx.

Pequeno fichamento com comentários sobre o capítulo IV de O Capital de Marx. Novamente, não se deseja aqui quebrar os direitos de propriedade da editora. Essas citações são um incentivo para compra, leitura e estudo da obra do autor.

Capítulo IV - Capital. Karl Marx.

O Capítulo IV chamado “Transformação do Dinheiro em Capital” inicia a Seção II sob o título de “A Transformação do Dinheiro em Capital”. Este capítulo é divido em três partes desenvolvendo inicialmente a fórmula geral do capital, contradições da fórmula geral e compra e venda da força de trabalho.


Primeira Parte


A Fórmula Geral do Capital


Esta parte tenta designar as duas fórmulas básicas de circulação de mercadorias. São elas:


M-D-M

Vender para comprar.


D-M-D

Comprar para vender.


Cada um dos dois ciclos é a unidade das mesmas fases contrapostas e, em ambos os casos, essa unidade é medida pelo surgimento de três contraentes, dos quais um apenas vende, outro apenas compra, mas o terceiro alternadamente, compra e vende.”


Ou seja:


D-M-D-M-D-M-D-M...


Para Marx o dinheiro possui duas formas, mercadoria e capital.


A circulação do dinheiro como capital é, pelo contrário, uma finalidade em si mesma, pois a valorização do valor só existe dentro deste movimento sempre renovado. Por isso o movimento do capital é insaciável.”


Comprar para vender, ou melhor, comprar para vender mais caro, D – M – D, parece ser decerto apenas uma espécie do capital, a forma peculiar do capital comercial.”


Segunda Parte


Contradições da Fórmula Geral


O capital pode ser gerado através da equação:


D – M – D


Onde, no momento da venda da mercadoria comprada, adiciono um valor “x” à M e revendo M acrescentado de “x”. Exemplo:


D – M (+ x) = Capital

A mais-valia não pode se originar da circulação, que, portanto, em sua formação deve ocorrer algo por trás de suas costas e que nela mesma é invisível.”


Capital não pode, portanto, originar-se da circulação e, tampouco, pode não originar-se da circulação. Deve, ao mesmo tempo, originar-se e não se originar dela.”


Nosso possuidor de dinheiro, por enquanto ainda presente apenas como capitalista larvar, tem de comprar as mercadorias por seu valor, vendê-las por seu valor e, mesmo assim, extrair no final do processo mais valor do que lançou nele. Sua metamorfose em borboleta tem de ocorrer na esfera da circulação e não tem de ocorrer na esfera da circulação.”


Terceira Parte


Compra e Venda da Força de Trabalho


Para Marx existe diferença entre mercadoria e produto. A mercadoria tem a função de promover o capital e o produto tem apenas a função de ser necessário à subsistência.


Para se tornar mercadoria o produto não pode ser produzido como meio de subsistência imediato para o próprio produtor. Se tivéssemos pesquisado mais: sob que circunstâncias todos os produtos tomam ou também apenas a maioria deles toma a forma de mercadoria, então se teria descoberto que isso só ocorre com base em um modo de produção bem específico, o capitalismo.”


... o trabalhador adianta ao capitalista o valor de uso da força de trabalho; ele deixa consumi-la pelo comprador, antes de receber o pagamento de seu preço; por toda a parte, portanto, o trabalhador fornece crédito ao capitalista.”


A força de trabalho é utilizada, descartada e revezada no intuito de se manter a força de produção:


As forças de trabalho subtraídas do mercado pelo desgaste e morte precisam ser continuamente substituídas ao menos por um número igual de novas forças de trabalho.”

Fichamento da obra Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx.

Fichamento realizado durante minha faculdade de ciências sociais na puc-sp no primeiro semestre de 2004 na disciplina de Sociologia III. As citações aqui expostas são meramente um convite à compra da obra e a leitura da mesma. São para fins pedagógicos.

I – Burgueses e Proletários


A história de toda a sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classe.”


...o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição ao outro, levada a efeito numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou, cada vez, ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito.”


A sociedade moderna burguesa, surgida das ruínas da sociedade feudal, não aboliu antagonismos de classes. Apenas estabeleceu novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das velhas.”


Historicamente, a burguesia desempenhou um papel revolucionário. Onde quer que tenha assumido o poder, a burguesia pôs fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. [...] Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e em nome das numerosas liberdades conquistadas estabeleceu a implacável liberdade de comércio. Em suma, substituiu a exploração, encoberta pelas ilusões religiosas e políticas, pela exploração aberta, única, direta e brutal.”


A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção e, por conseguinte, as relações de produção e, com elas todas as relações sociais.”


A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia a invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a parte, explorar toda a parte, criar vínculos em toda a parte.”


Com o rápido aprimoramento de todos os meios de produção, com as imensa facilidades dos meios de comunicação, a burguesia arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. [...] Força todas as nações, sob pena de extinção, a adotarem o modo burguês de produção; força-as a adotarem o que ela chama de civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria-se um mundo a sua imagem.”


Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A consequência necessária disso foi a centralização política. Províncias independentes, ligadas apenas por laços federativos, com interesses, leis, Governos e tarifas diferentes, foram reunidas em uma só nação, com um só governo, um só código de leis, um só interesse nacional de classe, uma só barreira alfandegária.”


[...] as relações feudais da propriedade mostraram-se incompatíveis com as forças produtivas em pleno desenvolvimento. Transformaram-se em outros tantos entraves a serem despedaçados; foram despedaçados. Em seu lugar implantou-se a livre concorrência, com uma constituição social e política própria, com a supremacia econômica e política da classe burguesa.”


[...] a história da indústria e do comércio é, simplesmente, a história da revolta das forças produtivas modernas contra as condições modernas de produção, contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio.”


Na mesma proporção que a burguesia, ou seja, o capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos trabalhadores moderno, que só podem viver se encontrarem trabalho, e só encontram trabalho na medida em que aumenta o capital. Esses trabalhadores são obrigados a vender-se diariamente, são uma mercadoria, um artigo de comércio, sujeitos, portanto, às vicissitudes da concorrência, às flutuações do mercado.”


O proletariado passa por diferentes estágios de desenvolvimento. A partir do seu nascimento começa a luta com a burguesia.”


II – Proletários e Comunistas

A característica particular do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. [...] expressão final do sistema de produção e apropriação que é baseado em antagonismos de classes, na exploração de muitos por poucos.”


Ser capitalista significa ocupar não somente uma posição pessoal na produção, mas também uma posição social.”


O comunismo não priva ninguém do poder de apropriar-se dos produtos da sociedade; o que faz é privá-lo do poder de subjugar o trabalho alheio por meio dessa apropriação.”


Os trabalhadores não tem pátria. Não podemos tomar deles aquilo que não possuem. Como o proletariado pretende adquirir a supremacia política, tornar-se a própria nação, é nesse sentido, ele mesmo nacional, embora não no sentido burguês da palavra.”


A supremacia do proletariado os fará desaparecer ainda mais rápido. A ação comum nos países civilizados é uma das principais condições de emancipação do proletariado.”


As idéias da classe dominante de uma época são sempre as idéias da classe dominante”


A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais.”


O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para oprimir outra.”


III – Literatura Socialista e Comunista

Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da Idade Média foram os precursores da burguesia moderna. Nos países de baixo nível de desenvolvimento industrial e comercial, essas classes ainda vegetam lado a lado com a burguesia em ascensão.”


Os socialistas burgueses querem todas as vantagens das condições sociais modernas sem as lutas e perigos. Querem o estado atual da sociedade sem os elementos que a revolucionam e a destroem. Desejam a burguesia sem o proletariado.”


IV – A Posição dos Comunistas em Relação aos Vários Partidos de Oposição


Mas o Partido Comunista nunca se esquece de despertar nos operários uma consciência nítida do antagonismo hostil entre a burguesia e o proletariado, para que os trabalhadores alemães usem adequadamente, como armas contra a burguesia, as condições sociais necessariamente criadas pelo regime burguês, a fim de que, uma vez destruídas as classes reacionárias na Alemanha, possa ser travada a luta contra a própria burguesia. [...] porque a revolução burguesa na Alemanha será prelúdio imediato de uma revolução proletária.”


Que as classes dominantes tremam diante da revolução comunista! Os proletários nada têm a perder senão os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!”

sábado, 4 de junho de 2022

Max Weber, Política como vocação.

 

Max Weber. Ciência e política: duas vocações. Editora Cultrix. São Paulo-SP.


Política como vocação:


Max Weber (1864-1920) foi um dos três grandes Sociólogos da história desta Ciência, juntamente com Durkheim e Marx. Weber se propõe neste ensaio, entre outras coisas, descrever o que é a vocação política. Weber nos fala sobre seu entendimento de Política: “conjunto de esforços feitos com vistas a participar do poder ou a influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado.” 1 O Estado só pode existir, segundo o autor, se os homens aceitarem sua autoridade e se submeterem a mesma.


Para o autor, existem dois tipos de administrações, o que o governante consegue governar por que existe uma estrutura do funcionalismo independente da vontade do chefe de governo e outro tipo privada ao dono do poder do Estado e que caso caia em mãos de oposição, nada fará para manter a governança necessária das coisas. Também existem dois tipos de funcionários no Estado: os que são geralmente concursados e são conhecidos como funcionários de carreira e aqueles que são funcionários políticos e que são inseridos na máquina Estatal através de indicações políticas. Para Weber, o verdadeiro funcionário deve ser aquele que mesmo contrariado com as ações que deve tomar no seu trabalho, acata as ordens superiores pois são ordens do Estado e seu papel é o de cumpri-las. Já o funcionário político, só faz aquilo que interessa ao seu partido ou liderança pouco se importando com os demais projetos e com o dinheiro público. Pg. 78 e 79.


Weber também critica a Revolução Russa por ter aparelhado o Estado com militantes do Partido Bolchevique e por ter inserido nos cargos da Polícia Política os mesmos ex-policiais da polícia czarista da Rússia. Por ter aberto as portas ao investimento do capital internacional, por ter inserido técnicas do taylorismo e do fordismo nas fábricas além das disciplinas de quartéis nos operários. Tudo aquilo que um regime democrático não faria. Pg. 85.


Acreditava o autor que existiam três tipos de dominação que raramente apareciam sozinhos e geralmente aconteciam de serem percebidos uns ligados aos outros. São eles:


1 - Tipo de Dominação Tradicional: É a autoridade do “passado eterno”, santificados pela falta de memória das pessoas, está no poder pelo hábito, pela tradição, é o velho senhor feudal que se enraizou no comando do feudo a tempos. O velho coronel das regiões secas e semi-áridas do sertão pode ser outro representante deste velho mandatário.


2 – Tipo de Dominação Carismático: Ele se apóia em seus dons da conversação e do discurso. Pode ser o velho político populista que ganha o amor, respeito e obediência das massas mediante seu heroísmo, seus ganhos, caso fosse um guerreiro ou militar vitorioso em suas campanhas. Geralmente pode ser um chefe de partido ou de algum movimento social ou popular numa determinada sociedade.


3 – Tipo de Dominação Legal: Existe outra categoria de autoridade que se empossa baseado num Estatuto, Leis, conjunto de regras previamente definidas ou uma Constituição. É o que Weber chama de dominação racional/legal. Geralmente vence ou é escolhido por sua competência. Um típico exemplo deste tipo de autoridade é o Juiz de Direito que só inicia a carreira da Magistratura por sua sabedoria das Leis e outros quesitos e sua competência por ter sido aprovado numa prova.


Há duas maneiras de se fazer política: Ou se “vive para a política” ou se “vive da política”. Esta é uma explicação muito fácil. O primeiro caso, trata-se geralmente de pessoas que subirão ao comando do Poder do Estado sem outra fonte de renda (ou até geralmente com outra fonte de renda) e sobreviverão graças ao seu salário de político. E assim este política viverá sugando os recursos do Estado para sempre. A outra forma, é aquele em que se tem uma outra fonte de renda e se vive para defender o espírito republicano. Weber acredita que a segunda hipótese, ou seja, os homens que já possuem uma fonte segura de renda, são melhores administradores pois estão livres dos dilemas de seus ganha pães cotidianos.


Conceito de Estado:


O conceito de Estado para Weber está amparado na seguinte sentença: “...devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território (...) reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física.2 Para Weber, assim como para Trotsky, o Estado se fundamenta no uso da força e da violência física. Não existe Estado sem estas qualidades. Acredita-se que Weber, ao pensar num Estado que necessite de tais características, recorre a Thomas Hobbes, Filósofo inglês, autor da obra “Leviatã” de 1651, onde fica exposto que os súditos abrem mão de seus direitos para uso exclusivo da força física nas mãos do Estado afim de preservar a vida e evitar a guerra de todos contra todos. Não que Weber irá concordar que as pessoas hoje em dia abrissem mão de seus direitos, mas assim como Hobbes, que elas devem abrir mão do uso da violência para que o somente o Estado tenha a posse de tal ferramenta.


Weber também irá analisar as condutas dos políticos do passado e de seu presente, argumentando em diversos exemplos o quanto o Estado foi vítima de espoliação e corrupção durante toda a história da Humanidade. Ficará claro que a única forma de se amenizar o mal que se chama corrupção e ausência de espírito republicano entre os políticos que “vivem da política” e não os que “vivem para a política” é aperfeiçoar e aprofundar mecanismos que fortaleçam hábitos e “ethos” em prol da constitucionalidade e respeito às regras do jogo democrático.


Finaliza Weber neste ensaio argumentando que a Política deve ser para os que tem baseado na racionalidade a construção de um novo mundo. Lembra Maquiavel em diversos momentos e que somente a fria mas racional verdade e a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade” devem amparar o governante. E não os obscurantismos das boas almas. A “ética da convicção” é aquela em que o indivíduo acredita tão profundamente e cegamente que sua doutrina ou ideologia seja a mais correta e a irretocável e que por esse motivo quaisquer que forem os atos em seu favor estarão legitimados por uma prévia idéia de que ele e sua proposta de sociedade é que estão ao lado da verdade e da razão. Será por isso que o pedantismo do Marxismo seja também o de ter se auto-intitulado Socialismo Científico? Para o partidário deste tipo de ética, o seu fazer o bem não leva em consideração parte da sociedade que provavelmente ira sofrer diante de uma ação mais radical ou violenta. Por exemplo, um revolucionário que resolve por uma bomba num café de uma avenida cara e chique de uma grande metrópole mundial, matará vários “burgueses” na sua concepção, o que vingará em parte a dor e sofrimento que o proletariado sofre nas periferias das grandes cidades. Tal atitude não leva em conta parcela da sociedade que se prejudicará com seu ato. Já a “ética da responsabilidade” leva em conta tais consequências, mas peca por ser universal, ou seja, é baseada numa regra que não venha a ferir os indivíduos que formam uma determinada sociedade. Provavelmente aí resida a influência do “Imperativo Categórico” Kantiano sobre esta segunda noção de ética que o autor nos fala.


Weber irá tratar também da política partidária suja e inescrupulosa que só vive de abocanhar cargos. Acredita que os Partidos (já em sua época) ficam mais preocupados e furiosos quando os cargos que lhes eram prometidos não são entregues do que se os programas partidários estão sendo desrespeitados.


Considerações:


Podemos pensar em Weber e nos seus conceitos puros de dominação para encaixarmos alguns líderes políticos atuais em seus esquemas? Para alguns Sociólogos e Cientistas Políticos, sim. O ex Presidente Lula foi tido por um Cientista Político Brasileiro em seu primeiro mandato como uma figura do “Tipo de dominação Carismática”. Acreditava tal Cientista que as massas tinham respeito e carinho pelo Presidente pela forma fácil e atraente com que se dirigia ao povo falando geralmente de forma simples e bem humorada, o que acabou cativando o público. Para outros, o Presidente Chaves da Venezuela seria o “Tipo de dominação Tradicional” pois sempre utiliza seu passado de militar revolucionário e mais recentemente ao resistir e sobreviver ao golpe que sofreu quando tentaram retirá-lo do poder.


Os diversos casos de corrupção como os “mensalões” e “mensalinhos” da vida, podem ser analisados sob a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade” de Weber: a primeira pela crença em fazer o bem na política (sem levar em consideração as consequências que irão surgir a partir de seus atos) e a segunda, pelo respeito ao que é do público e não do privado.


Outra questão que devemos tratar das duas éticas de que o autor nos comenta em sua fala, é de certa forma uma inocência a respeito das mesmas. Como é possível uma ética universal (a “ética da responsabilidade”) numa sociedade dividida economicamente, culturalmente e socialmente? Em outras palavras, como é possível uma ética numa sociedade de classes? A meu ver, parece impossível.


Outra questão, quando Weber critica o impulso do militante da “ética da convicção” por somente levar em consideração dos seus atos aquilo que ele acredita e, respeitar somente o que sua doutrina ordena, ele, o militante da “causa revolucionária”, põe em desrespeito todo o restante da sociedade ou parcela importante dela. Portanto, é uma ética parcial perante o restante da sociedade. Aí voltamos a pergunta anterior: é possível uma ética única numa sociedade de classes? Eu acredito que não.

1 Weber, Max. Ciência e Política: duas vocações. Editora Cultrix. São Paulo-SP. Pg.56.

2 Op. Cit. Pg.56.