sábado, 4 de junho de 2022

Max Weber, Política como vocação.

 

Max Weber. Ciência e política: duas vocações. Editora Cultrix. São Paulo-SP.


Política como vocação:


Max Weber (1864-1920) foi um dos três grandes Sociólogos da história desta Ciência, juntamente com Durkheim e Marx. Weber se propõe neste ensaio, entre outras coisas, descrever o que é a vocação política. Weber nos fala sobre seu entendimento de Política: “conjunto de esforços feitos com vistas a participar do poder ou a influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado.” 1 O Estado só pode existir, segundo o autor, se os homens aceitarem sua autoridade e se submeterem a mesma.


Para o autor, existem dois tipos de administrações, o que o governante consegue governar por que existe uma estrutura do funcionalismo independente da vontade do chefe de governo e outro tipo privada ao dono do poder do Estado e que caso caia em mãos de oposição, nada fará para manter a governança necessária das coisas. Também existem dois tipos de funcionários no Estado: os que são geralmente concursados e são conhecidos como funcionários de carreira e aqueles que são funcionários políticos e que são inseridos na máquina Estatal através de indicações políticas. Para Weber, o verdadeiro funcionário deve ser aquele que mesmo contrariado com as ações que deve tomar no seu trabalho, acata as ordens superiores pois são ordens do Estado e seu papel é o de cumpri-las. Já o funcionário político, só faz aquilo que interessa ao seu partido ou liderança pouco se importando com os demais projetos e com o dinheiro público. Pg. 78 e 79.


Weber também critica a Revolução Russa por ter aparelhado o Estado com militantes do Partido Bolchevique e por ter inserido nos cargos da Polícia Política os mesmos ex-policiais da polícia czarista da Rússia. Por ter aberto as portas ao investimento do capital internacional, por ter inserido técnicas do taylorismo e do fordismo nas fábricas além das disciplinas de quartéis nos operários. Tudo aquilo que um regime democrático não faria. Pg. 85.


Acreditava o autor que existiam três tipos de dominação que raramente apareciam sozinhos e geralmente aconteciam de serem percebidos uns ligados aos outros. São eles:


1 - Tipo de Dominação Tradicional: É a autoridade do “passado eterno”, santificados pela falta de memória das pessoas, está no poder pelo hábito, pela tradição, é o velho senhor feudal que se enraizou no comando do feudo a tempos. O velho coronel das regiões secas e semi-áridas do sertão pode ser outro representante deste velho mandatário.


2 – Tipo de Dominação Carismático: Ele se apóia em seus dons da conversação e do discurso. Pode ser o velho político populista que ganha o amor, respeito e obediência das massas mediante seu heroísmo, seus ganhos, caso fosse um guerreiro ou militar vitorioso em suas campanhas. Geralmente pode ser um chefe de partido ou de algum movimento social ou popular numa determinada sociedade.


3 – Tipo de Dominação Legal: Existe outra categoria de autoridade que se empossa baseado num Estatuto, Leis, conjunto de regras previamente definidas ou uma Constituição. É o que Weber chama de dominação racional/legal. Geralmente vence ou é escolhido por sua competência. Um típico exemplo deste tipo de autoridade é o Juiz de Direito que só inicia a carreira da Magistratura por sua sabedoria das Leis e outros quesitos e sua competência por ter sido aprovado numa prova.


Há duas maneiras de se fazer política: Ou se “vive para a política” ou se “vive da política”. Esta é uma explicação muito fácil. O primeiro caso, trata-se geralmente de pessoas que subirão ao comando do Poder do Estado sem outra fonte de renda (ou até geralmente com outra fonte de renda) e sobreviverão graças ao seu salário de político. E assim este política viverá sugando os recursos do Estado para sempre. A outra forma, é aquele em que se tem uma outra fonte de renda e se vive para defender o espírito republicano. Weber acredita que a segunda hipótese, ou seja, os homens que já possuem uma fonte segura de renda, são melhores administradores pois estão livres dos dilemas de seus ganha pães cotidianos.


Conceito de Estado:


O conceito de Estado para Weber está amparado na seguinte sentença: “...devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território (...) reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física.2 Para Weber, assim como para Trotsky, o Estado se fundamenta no uso da força e da violência física. Não existe Estado sem estas qualidades. Acredita-se que Weber, ao pensar num Estado que necessite de tais características, recorre a Thomas Hobbes, Filósofo inglês, autor da obra “Leviatã” de 1651, onde fica exposto que os súditos abrem mão de seus direitos para uso exclusivo da força física nas mãos do Estado afim de preservar a vida e evitar a guerra de todos contra todos. Não que Weber irá concordar que as pessoas hoje em dia abrissem mão de seus direitos, mas assim como Hobbes, que elas devem abrir mão do uso da violência para que o somente o Estado tenha a posse de tal ferramenta.


Weber também irá analisar as condutas dos políticos do passado e de seu presente, argumentando em diversos exemplos o quanto o Estado foi vítima de espoliação e corrupção durante toda a história da Humanidade. Ficará claro que a única forma de se amenizar o mal que se chama corrupção e ausência de espírito republicano entre os políticos que “vivem da política” e não os que “vivem para a política” é aperfeiçoar e aprofundar mecanismos que fortaleçam hábitos e “ethos” em prol da constitucionalidade e respeito às regras do jogo democrático.


Finaliza Weber neste ensaio argumentando que a Política deve ser para os que tem baseado na racionalidade a construção de um novo mundo. Lembra Maquiavel em diversos momentos e que somente a fria mas racional verdade e a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade” devem amparar o governante. E não os obscurantismos das boas almas. A “ética da convicção” é aquela em que o indivíduo acredita tão profundamente e cegamente que sua doutrina ou ideologia seja a mais correta e a irretocável e que por esse motivo quaisquer que forem os atos em seu favor estarão legitimados por uma prévia idéia de que ele e sua proposta de sociedade é que estão ao lado da verdade e da razão. Será por isso que o pedantismo do Marxismo seja também o de ter se auto-intitulado Socialismo Científico? Para o partidário deste tipo de ética, o seu fazer o bem não leva em consideração parte da sociedade que provavelmente ira sofrer diante de uma ação mais radical ou violenta. Por exemplo, um revolucionário que resolve por uma bomba num café de uma avenida cara e chique de uma grande metrópole mundial, matará vários “burgueses” na sua concepção, o que vingará em parte a dor e sofrimento que o proletariado sofre nas periferias das grandes cidades. Tal atitude não leva em conta parcela da sociedade que se prejudicará com seu ato. Já a “ética da responsabilidade” leva em conta tais consequências, mas peca por ser universal, ou seja, é baseada numa regra que não venha a ferir os indivíduos que formam uma determinada sociedade. Provavelmente aí resida a influência do “Imperativo Categórico” Kantiano sobre esta segunda noção de ética que o autor nos fala.


Weber irá tratar também da política partidária suja e inescrupulosa que só vive de abocanhar cargos. Acredita que os Partidos (já em sua época) ficam mais preocupados e furiosos quando os cargos que lhes eram prometidos não são entregues do que se os programas partidários estão sendo desrespeitados.


Considerações:


Podemos pensar em Weber e nos seus conceitos puros de dominação para encaixarmos alguns líderes políticos atuais em seus esquemas? Para alguns Sociólogos e Cientistas Políticos, sim. O ex Presidente Lula foi tido por um Cientista Político Brasileiro em seu primeiro mandato como uma figura do “Tipo de dominação Carismática”. Acreditava tal Cientista que as massas tinham respeito e carinho pelo Presidente pela forma fácil e atraente com que se dirigia ao povo falando geralmente de forma simples e bem humorada, o que acabou cativando o público. Para outros, o Presidente Chaves da Venezuela seria o “Tipo de dominação Tradicional” pois sempre utiliza seu passado de militar revolucionário e mais recentemente ao resistir e sobreviver ao golpe que sofreu quando tentaram retirá-lo do poder.


Os diversos casos de corrupção como os “mensalões” e “mensalinhos” da vida, podem ser analisados sob a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade” de Weber: a primeira pela crença em fazer o bem na política (sem levar em consideração as consequências que irão surgir a partir de seus atos) e a segunda, pelo respeito ao que é do público e não do privado.


Outra questão que devemos tratar das duas éticas de que o autor nos comenta em sua fala, é de certa forma uma inocência a respeito das mesmas. Como é possível uma ética universal (a “ética da responsabilidade”) numa sociedade dividida economicamente, culturalmente e socialmente? Em outras palavras, como é possível uma ética numa sociedade de classes? A meu ver, parece impossível.


Outra questão, quando Weber critica o impulso do militante da “ética da convicção” por somente levar em consideração dos seus atos aquilo que ele acredita e, respeitar somente o que sua doutrina ordena, ele, o militante da “causa revolucionária”, põe em desrespeito todo o restante da sociedade ou parcela importante dela. Portanto, é uma ética parcial perante o restante da sociedade. Aí voltamos a pergunta anterior: é possível uma ética única numa sociedade de classes? Eu acredito que não.

1 Weber, Max. Ciência e Política: duas vocações. Editora Cultrix. São Paulo-SP. Pg.56.

2 Op. Cit. Pg.56.

Pequenas considerações sobre Ideologia Alemã de Marx.

Trabalho de faculdade para a disciplina de Sociologia III realizado no primeiro semestre de 2004. Resenha da obra "Ideologia alemã" de Karl Marx. Como nos outros fichamentos deste blog, vale a pena comprar a obra, ler, estudar e dialogar a respeito.


Ideologia Alemã. Karl Marx. Editora Vozes.

A primeira parte das três divisões de A Ideologia Alemã, Marx nos traz a crítica à concepção materialista intuitiva dos neo-hegelianos. Assim como nas demais duas partes, estas também fazem a crítica ao neo-hegelianismo, na produção da consciência, nas relações produtivas, na noção de propriedade e no projeto comunista de emancipação do proletariado.


O primeiro pressuposto de toda a história humana é naturalmente a existência de indivíduos humanos vivos. O primeiro ato histórico destes indivíduos, pelo qual se distinguem dos animais, não é o fato de pensar, mas de produzir seus meios de vida.”


Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por tudo que se queira. Mas eles próprios começam a se diferenciar dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo este que é condicionado por sua organização corporal. Produzindo seus meios de vida, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material.”


Para Marx, a divisão do trabalho em suas diferentes fases de desenvolvimento cria formas de propriedade. A primeira para o autor é a propriedade tribal que tem a escravidão latente na família e que se desenvolve com o crescimento da população. A segunda é a propriedade comunal e estatal da antiguidade que tem como base a escravidão, onde as relações entre classes estão completamente desenvolvidas. A terceira forma é a propriedade feudal ou estamental, na qual a classe produtora são os camponeses servos.


Marx acredita que a única forma de se romper o processo de alienação da consciência da classe trabalhadora é a situação extrema que faz perceber aos explorados suas contradições (a nítida destituição dos proletários sem a propriedade enquanto a elite transborda, esbanja riqueza) com a classe dominante.


Os elementos materiais de uma subversão total são, de um lado, as forças produtivas existentes e, de outro, a formação de uma massa revolucionária que se revolte, não só contra as condições particulares da sociedade existente até então, mas também contra a própria ‘produção da vida’ vigente, contra a ‘atividade total’ sobre a qual se baseia.”


A concepção materialista de história definida por Marx é divida em quatro itens:


  • No desenvolvimento das formas produtivas emana uma nova classe social sem as regalias dos dominadores. Desta classe dominada nasce a consciência comunista graças a sua situação de classe (contraditória à situação da classe dominante, possuidora dos meios de produção).

  • O Estado é expressão prático-idealista nas mãos da elite econômica. Faz-se necessário a luta revolucionária para uma nova direção do Estado.

  • A revolução comunista faz com que a atividade do modo de produção seja orientada para suprimir o resultado do trabalho e superar a dominação de classes e as próprias classes.

  • A transformação dos homens deve ser feita por uma revolução. Uma revolução que faça “varrer toda a podridão do velho sistema e tornar-se capaz de fundar a sociedade sobre bases novas”.

Outro fichamento da obra "O lugar do marxismo na História" de Ernest Mandel.

Fichamento realizado na faculdade. O objetivo desta publicação é apenas de caráter pedagógico e do incentivo a leitura da obra do autor. Se você gostou das passagens abaixo selecionadas, pode e deve comprar o livro.

AS CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS DO MARXISMO

“O marxismo aparece ao mesmo tempo como uma transformação revolucionária e como uma unificação progressiva:

  • das ciências humanas, mais exatamente das ciências sociais;

  • do movimento político de emancipação, antes de tudo das organizações revolucionárias, nascidas da extrema-esquerda da Revolução Francesa;

  • do movimento operário elementar espontâneo, criado pelos próprios trabalhadores, independentemente de qualquer teoria filosófica ou sociológica;

  • do socialismo pré-marxista, ou seja, da elaboração de projetos de uma sociedade melhor, de “soluções para a questão social” essencialmente no nível teórico e ideológico: teorias filosóficas, sociológicas, econômicas combinadas com atividades educativas e filantrópicas (fundação das primeiras colônias “comunistas”).”


“Na área das ciências sociais, a apropriação crítica refere-se, sobretudo, a filosofia clássica alemã, à economia política inglesa e a historiografia sociológica francesa, que descobria e aplicara os conceitos de classes sociais e luta de classes.”


“O marxismo aparece, assim, como uma síntese quádrupla:


  • síntese entre as principais ciências sociais;

  • síntese entre as ciências sociais e o projeto de emancipação da humanidade;

  • síntese entre o projeto de emancipação humana e o movimento real de auto-organização e auto-emancipação do proletariado moderno;

  • síntese entre esse movimento operário real e a ação de organização política revolucionárias.”


AS TRANSFORMAÇÕES DAS CIÊNCIAS SOCIAIS PELO MARXISMO


  1. A transformação da filosofia clássica alemã


“Marx e Engels procuraram corrigir essas fraquezas da dialética idealista “recolocando-a sobre seus pés” (subentendido: Hegel a tinha colocado sobre a cabeça, ou seja, de cabeça para baixo). Assim, a mesmo tempo, eles transformaram a dialética idealista em dialética materialista. Esta baseia-se nas seguintes constatações:


    1. A realidade material (a natureza e a sociedade) existem independentemente dos desejos, paixões, intenções e idéias dos que procuram interpretá-la. Ela é uma realidade objetiva, que o pensamento procura explicar.”

    2. “[...] O critério final do grau de veracidade do pensamento, da ciência, é, portanto, prático.”

    3. “[...] Os seres humanos reais e concretos são os seres humanos social e historicamente específicos, ou seja, determinados pelas condições sociais específicas nas quais eles vivem, condições que mudam de acordo com a época histórica.

    4. O movimento de emancipação real que se realiza progressivamente ao longo da história, com saltos para a frente aos quais se sucedem retrocessos graves, não é exclusivamente, nem essencialmente, nem mesmo antes de tudo, do movimento de emancipação espiritual.”


  1. A transformação da historiografia sociológica francesa


“O conjunto dessas relações de produção determina, em última instância, o conjunto das relações sociais – na sociedade de classes – e, assim a própria estrutura da sociedade. Esta é a primeira tese central do materialismo histórico.”


É a base social (a infra-estrutura), são as relações sociais de produção, que determinam em última instância essa superestrutura social, ou seja, que determinam a evolução e as formas predominantes do direito, dos costumes, da religião, da filosofia, das ciências, da arte, da literatura de cada época. É a existência social que condiciona a consciência social. Essa é a segunda tese central do materialismo histórico. Como a classe dominante controla o sobreproduto social e, portanto, toda a sociedade, a ideologia da classe dominante geralmente é a ideologia dominante de cada época.”


“O Estado é um produto da divisão da sociedade em classes, um instrumento de consolidação, de manutenção e de reprodução da dominação de uma determinada classe. Essa é a terceira tese central do materialismo histórico.


  1. A transformação da economia política inglesa


“Marx estabeleceu que o trabalho não é, antes de tudo, uma unidade de medida comum dos diferentes elementos dos custos de produção das mercadorias. Ele é a própria essência do valo. O valor é o trabalho, mas exatamente uma fração do potencial de trabalho (da massa de jornadas de trabalho/horas de trabalho) disponível em uma sociedade determinada durante um período determinado.”


“Todo assalariado produz, portanto, “valor adicional”. Mas como o capitalista paga um salário ao operário e a operária – salário que representa o custo de reprodução da força de trabalho –, ele comprará essa força de trabalho apenas se “o valor adicionado” pelo operário ou operária ultrapassa o valor da própria força de trabalho. Essa fração de valor recentemente produzida pelo assalariado é chamada por Marx de mais-valia. A mais-valia é a diferença entre o valor produzido pela força de trabalho e o valor próprio dessa força de trabalho, quer dizer, a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador ou trabalhadora e os custos de reprodução da força de trabalho.”


A SUPERAÇÃO DO SOCIALISMO UTÓPICO


“As diferenças e contradições do socialismo utópico refletem, portanto, em última análise, a imaturidade das condições materiais (econômicas e sociais) nas quais as classes oprimidas pré-proletárias combateram por uma sociedade sem classes. Seu “utopismo” refere-se não ao objetivo a realizar, mas as condições necessárias a sua realização.”


A FUSÃO DO MOVIMENTO OPERÁRIO REAL E DO SOCIALISMO CIENTÍFICO


“Contrariamente à lenda difundida pelo inimigo de classe, os luddistas não eram de modo algum adversários das máquinas, por princípio. O objetivo de suas ações não era a eliminação das máquinas na indústria têxtil, mas sim o aumento dos salários, a luta contra a carestia e o desemprego, e outros objetivos clássicos dos primeiros sindicatos. A tática de inutilizar as máquinas se impões porque os trabalhadores essencialmente alugavam as máquinas dos patrões para trabalhar em casa. Nessas condições, o fato de inutilizar as máquinas foi considerado como meio mais eficaz de combater os fura-greves, o único meio de tornar a greve realmente geral. A burguesia ficou tão assustada com os “quebradores de máquinas’ que fez aprovar uma lei sancionando esse “crime” com a pena de morte.”


O ITINERÁRIO PESSOAL DE MARX E ENGELS


“Nos países em que seus partidários começavam a se organizar, Marx e Engels insistiam para que eles estudassem a formação social concreta o país, para que se apropriassem das tradições de luta locais e traduzissem seu programa na linguagem das organizações operárias e contestatórias existentes; esse é o sentido geral de suas Cartas aos Americanos, de 1848 a 1885.”


RECEPÇÃO E DIFUSÃO DO MARXISMO PELO MUNDO


“A recepção e a difusão do marxismo no mundo devem, portanto, ser examinadas sucessivamente:


  1. no plano estrito da difusão dos escritos de Marx e Engels;

  2. no plano da influÊncia dessas idéias fora do movimento operário propriamente dito, ou seja, nos meios intelectuais, universitários e, em geral, no “espírito do tempo” (as ideologias dominantes nas fases sucessivas pelas quais a sociedade burguesa passa);

  3. no seio do movimento operário organizado;

  4. no seio da classe operária de modo geral;

  5. a nível internacional”


“Entretanto, o marxismo influenciará de maneira crescente, ainda que indireta, as ciências sociais acadêmicas, principalmente a historiografia e a sociologia, impondo uma tomada de consciência da importância do “fator econômico” e dos grupos sociais (ao contrários dos “grandes homens”) na história. Ele remodela assim o conceito mesmo de história, de uma história de Estados e acontecimentos essencialmente político-militares para uma história de sociedades.”

Fichamento da obra "A teoria da revolução no jovem Marx" de Michel Lowy, Editora Vozes.

Fichamento realizado na época da faculdade e publicado agora por mim apenas para objetivo pedagógico. Para quem quiser conhecer um pouco mais da obra deste grande Sociólogo, vale muito a pena comprar o livro.

INTRODUÇÃO:

1 - Observações Metodológicas

A) Premissa de um estudo marxista do marxismo

“Parece-nos que o estudo marxista da evolução político-filosófica do jovem Marx implica duas medidas essenciais:


a- Inserir essa evolução na totalidade histórico-social, de que faz parte, nos quadros sociais que a condicionam: a sociedade capitalista do século XIX, o movimento operário anterior a 1848, a intelligentsia neo-hegeliana, etc. Isso não significa que a evolução do pensamento do jovem Marx é um simples “reflexo” dessas condições econômicas, sociais, políticas, mas que ela não pode ser “explicada” em sua gênese e “compreendida” em seu conteúdo sem essa análise sócio-histórica.

b- Não separar artificialmente, na análise do conteúdo da obra, os ‘juízos de valor”, a “ciência” da “ética” – a categoria marxista da práxis é precisamente a superação dialética dessas contradições. Da mesma forma, não separar a obra teórica de Marx de sua atividade prática, “o homem de ciência” do “homem político”: a ciência, para ele deveria ser revolucionária e a revolução, “científica”...”


B) Quadros sociais do marxismo: O proletariado


“No decorrer deste trabalho, verificamos que, pelo menos em suas linhas gerai, o conhecimento dos quadros sociais e históricos era absolutamente indispensável para:


1. Compreender a evolução do pensamento de Marx, suas transformações, suas crises, seus saltos qualitativos, seus “cortes”, suas “conversões políticas”, suas reorientações, etc...

2. Separar o essencial do secundário ou acidental e descobrir elementos importantes que, de outro modo, poderiam passar despercebidos.

3. Desvendar a significação real – concreta e histórica – das categorias vagas, dos termos ambíguos, de fórmulas “enigmáticas”, etc.

4. Situar cada elemento no todo e estabelecer as conexões internas do conjunto.”


C) A ciência revolucionária do jovem Marx


(J.Hyppolite, Études sur Marx et Hegel, Paris, Marcel Rivière, 1955, p.154 Apud. Michel Löwy) “Sua ciência (a de Marx) não é somente uma ciência da realidade social: ao tomar consciência disso, ela contribui para criar esta mesma realidade ou, pelo menos, para modificá-la profundamente [...].”


2 - A revolução comunista e a auto-emancipação do proletariado

A) O mito supremo do Salvador


“Com a libertação sendo levada a cabo no modo alienado, o novo Estado estabelecido pelo “Libertador” não pode ser, também ele, senão alienado.”


B) A auto-emancipação operária


“A atitude dos trabalhadores durante as conjunturas revolucionárias traduz o caráter eminentemente prático da tomada de consciência: a experiência da ação popular armada, a acentuação dos conflitos sociais, a desmistificação dos “grandes homens” das camadas dominantes, numa palavra, a práxis revolucionária, traduz-se no nível da consciência de vanguarda e das massas pela radicalização das aspirações igualitárias e a eclosão do projeto de auto libertação.”


C) O comunismo de massas de Marx


“A idéia central do “comunismo de massas” de Marx é a autolibertação das massas por meio da revolução comunista. Esta idéia, ou antes, esta constelação significativa de idéias, comporta três momentos dialeticamente ligados, três perspectivas que se implicam mutuamente:


a- Constatação da natureza potencialmente revolucionária do proletariado;

b- Tendência do proletariado para a consciência comunista no curso de sua práxis revolucionária

c- Papel dos comunistas para desenvolver essa tendência até a coerência total. Nesse triplo andamento a estrutura crítico-prática do pensamento de Marx aparece claramente: com base na reflexão crítica sobre o real, é extraída uma possibilidade – e sobre essa possibilidade ele funda um projeto de ação transformadora.”


I – A PASSAGEM PARA O COMUNISMO (1842-1844)

1 - A Gazeta renana


A) O estado e o interesse privado

“A maior repreensão feita por Marx ao interesse privado, representado nesse artigo pelos proprietários de florestas, cuja “alma miserável nunca foi aclarada nem atravessada por um pensamento de Estado”, é contra a pretensão de transformar o Estado em instrumento de seu uso, as autoridades do Estado em domésticos a seu serviço, os órgãos do Estado em “orelhas, olhos, braços e pernas com os quais o interesse do proprietário de florestas escuta, espiona, avalia, protege, apodera-se e corre”

“Num verdadeiro Estado não existe propriedade fundiária, nem indústria, nem substância material que possa, enquanto elemento bruto, entrar em acordo com o Estado. Existem somente forças espirituais e é somente em sua reconstrução estatal, em seu renascimento político, que as forças são admitidas no Estado”.


2- Ruptura e transição (1843)


A) A crítica da filosofia do estado de Hegel


“À luz dessas considerações, é preciso encarar o significado da solução proposta por Marx: a “verdadeira democracia”. De maneira alguma trata-se aqui da democracia republicana burguesa, mas de uma transformação radical, que implica a supressão do Estado político alienado e da sociedade civil “privatizada”. Para ele, a palavra democracia tem um sentido específico: abolição da separação entre o social e o político, o universal e o particular.”


B) A correspondência com Ruge


“Rejeita a atitude dos filósofos que “tinham a solução de todos os enigmas inteiramente preparadas em sua escrivaninha” e para os quais “esse tolo mundo esotérico tinha apenas que estender as mãos para que os frutos da ciência absoluta lhes caíssem totalmente maduros”.”


3- A adesão ao comunismo


B) Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel


“...uma tal revolução só pode ser cumprida apenas por uma classe que não seja uma “classe particular” da sociedade civil, mas uma classe universal, que não tem nenhum privilégio para defender, que não tem nenhuma classe abaixo dela, o proletariado.”


II – A TEORIA DA REVOLUÇÃO COMUNISTA (1844-1846)


1- Marx e o movimento operário (1844-1845)


C) O cartismo


“Os dois temas centrais da União operária são:

  1. A unificação do proletariado: Flora Tristan começa por meio de uma crítica radical das associações artesanais (Associação de oficiais, mutuais, etc.) – crítica que se inspira em “reformadores” como Perdiguier, Moreau, Gosset, mas os supera amplamente, “sociedades particulares cujo único objetivo é aliviar os sofrimentos individuais”, sociedades que “nao podem (e não pretendem) mudar em nada nem mesmo melhorar a posição material e moral da classe operária”; crítica também do corporativismo, “esta organização bastarda, mesquinha, egoísta, absurda, que divide a classe operária numa multidão de pequenas sociedades particulares [...] esse sistema de retalhamento que dizima os operários”. A tal divisão de proletários, “verdadeira causa de seus males”, Flora Tristan opõe a UNIÃO OPERÁRIA cujo objetivo essencial é “construir A UNIDADE compacta, indissolúvel, da CLASSE OPERÁRIA”: “Operários, vocês estão vendo, se vocês quiserem se salvar, vocês têm apenas um único meio: é preciso se UNIR”; “Operários, ponham então de lado todas as suas pequenas rivalidades e, fora de suas associações particulares, formem uma UNIÃO compacta, sólida, indissolúvel”

  2. A auto-emancipação do proletariado. [...] “Se os burgueses, na verdade, eram ‘a cabeça’, tinham como ‘braço’ o povo, do qual sabiam habilmente se servir. Quanto a vocês, proletários, vocês não tem ninguém para os ajudar. É preciso então que sejam, ao mesmo tempo, ‘a cabeça’ e ‘o braço’”.”

D) A revolta dos tecelões silesianos

“Sois a fonte da miséria

Que oprime aqui o pobre

Sois vós que dele arranca

O pão seco da boca

mas vossa prata e vosso bem

um belo dia desaparecerão

como manteiga no sol.

O que será de vós então?”


“ “Então, em junho de 1844, em Peterswalden e Landebielau, na Silésia, levantaram-se um dia cinco mil tecelões, segurando bastões, facas, pedras em seus punhos magros. E travaram uma batalha corajosa contra alguns batalhões de soldados! E saquearam os palácios dos palácios dos príncipes da fábrica, e destruíram os livros de dívidas e as letras de crédito. Não cometeram porém nenhum roubo, nenhuma fraude [...]. Numa palavra: pela primeira vez, em solo da pátria alemã, nessa Silésia habitualmente tão tranqüila, apareceu um sinal precursor da transformação social que dirige o mundo irresistivelmente rumo ao desenvolvimento superior da humanidade”.”


2- O corte: teoria da revolução (1844-1846)


A) Os manuscritos de 1844


“ “O ateísmo é o humanismo reconduzido a si mesmo pelo termo médio da supressão da religião, o comunismo é o humanismo reconduzido a si mesmo por aquele da abolição da propriedade privada”.”


C) A sagrada família


“Em outros termos, para ele, o ponto de partida teórico, a raiz histórica, o fundamento filosófico do comunismo há de se encontrar no teorema materialista: “As circunstâncias formam os homens; para transformar os homens, é preciso transformar as circunstâncias”.”

D) Teses sobre Feuerbach


“É revolucionária porque transforma a natureza e a sociedade e, enfim, é crítico-prática em três sentidos: enquanto prática orientada por uma teoria crítica, enquanto crítica orientada para a prática que “critica” (nega) o estado de coisas existente.”


E) A ideologia alemã


“Evidentemente, essa consciência comunista não é fruto de uma reflexão teórica abstrata dos operários, mas do processo concreto e prático da luta de classes: é a posição entre a burguesia e o proletariado que engendrou as idéias comunistas e socialistas.”


III – A TEORIA DO PARTIDO (1846-1848)


1 - Marx e o partido comunista (1846-1848)


B) A liga dos comunistas


“A Liga quer superar, enfim, a divisão do socialismo alemão – entre os “partidos filosóficos” (“verdadeiro socialismo”, etc.) e as seitas artesãs limitadas – reunindo numa única organização a vanguarda comunista da Intelligentsia e a da classe operária. Uma análise da composição sócio-profissional da Liga dos Comunistas, de 1847 a 1852, sugere que essa fusão foi levada a cabo (ao menos parcialmente) – ela nos fornece, ao mesmo tempo, indícios da primeira base social do marxismo.”


“Em suma a Liga dos Comunistas foi, para Marx, uma primeira tentativa prática de superar a contradição entre a organização nacional e internacional do proletariado e de ultrapassar a divisão do movimento comunista entre a conspiração e a “propaganda pacífica” através da criação de um partido que não seja uma seita artesã limitada nem um pseudo-partido de filósofos pequeno-burgueses. Essa tentativa teve êxito apenas muito parcialmente, no entanto preparou o caminho para a aparição, doze anos depois da dissolução da Liga, da Associação internacional dos trabalhadores.”


2 - Os comunistas e o movimento proletário (1847-1848)


“Em suma o partido comunista de Marx não é o herdeiro do “supremo salvador” burguês e utopista; é a vanguarda do proletariado que luta para emancipar-se; é o instrumento da tomada de consciência e da ação revolucionária das massas. Seu papel não é o de agir no lugar ou “acima” da classe operária, mas de orientá-la para o caminho de sua auto-libertação, para a revolução comunista “de massas”.”

IV – PARTIDO, MASSAS E REVOLUÇÃO. MARX DEPOIS DE 1848


E) Marx , Engels e a social-democracia alemã


“Numa carta de 18 de outubro de 1877 a F.A.Sorge, Marx queixa-se de que, “na Alemanha, um espírito ‘podre’ prevalece em nosso Partido, nao tanto nas massas quanto entre os chefes”. Critica particularmente o compromisso dos “chefes” com “todo um bando de estudantes imaturos e doutores muito sábios que querem dar ao socialismo uma feição ‘ideal mais alta’”.”


“Quanto a nós, conforme todo nosso passado, um único caminho nos resta aberto. Há quase quarenta anos, assinalamos a luta de classe como o motor da história mais decisivo e designamos especialmente a luta social entre a burguesia e o proletariado como a grande alavanca da revolução social moderna. Não podemos, portanto, de nenhum modo, nos associar a pessoas que gostariam de suprimir o movimento dessas lutas de classes. Quando a criação da Internacional, formulamos a divisa de nosso combate: a emancipação da classe operária será a obra da própria classe operária. Não podemos conseqüentemente, caminhar junto com pessoas que declaram abertamente que os operários são incultos demais para que eles mesmos se libertem e que devem ser libertados de cima, isto é, por grandes e pequenos burgueses filantropos. Se o novo órgão do Partido toma uma atitude que corresponde a opinião desses senhores (Höchberg e companhia), torna-se burguês e não proletário; tão penoso quanto isso possa ser, só nos resta declararmo-nos publicamente contra o romper da solidariedade, graças à qual representamos o Partido alemão no exterior”.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Quando a extrema direita disfarçada de ulta liberal chega ao poder... quem perde é o povo!


Quando a extrema direita fascista disfarçada de ultra liberal ou neo liberal chega ao poder, os serviços públicos mais básicos e que lidam com a população mais pobre sofre as consequências. Educação é destruída, saúde, cultura, lazer, assistência social, segurança pública e tantos outros serviços que são prestados diretamente ao povo mais sofrido são deixados de lado para que se diminua a presença do orçamento do serviço público com o propósito de que os ricos não precisem mais pagar impostos. Enxugar o Estado, Estado mínimo, diminuir a máquina, aumentar a produtividade do funcionalismo, são só alguns nomes bonitos que a extrema direita fascista de sapatênis usa para proteger os interesses do grande capital afim de que esses não necessitem mais pagar impostos. Para os ricos, o desejo de que os pobres se lasquem na vida é realizado na figura desses tipos de governantes.

domingo, 10 de abril de 2022

Pequena reflexão sobre "A metamorfose" de Kafka.

 

A metamorfose – Kafka


Como escrever algo simples e direto sobre a obra sem que alguém já não o tenha dito? Metamorfose representa os diversos dilemas e angústias que passam os homens na modernidade. Ao acordar e se ver transformado em um inseto gigante, provavelmente um besouro ou uma barata, o que podemos imaginar é que o autor a partir daquela data está se diferenciando dos demais homens de nossa sociedade. Sou diferente sim! E daí?!


Ao se notar diferente, ele trabalha com a narrativa na primeira pessoa durante toda a primeira parte da obra. Depois da segunda e durante a terceira parte, ele se abstêm e faz o discurso do narrador, mas em terceira pessoa. Como se ele mesmo tivesse se distanciado do monstro que se tornara ou não se enxergasse mais daquela forma. Por acaso começou a se ver inserido na vida comum dos homens do dia pra noite? Difícil.


Ao se retratar como inseto gigante que se tornara, Kafka poderia estar nos dizendo que não deseja mais esse tipo de vida cheio de burocracias, empecilhos para a felicidade ou carregado de coisas inúteis como a moral burguesa e o consumismo desenfreado como remédio aos males da alma. Ele também pode estar tentando nos dizer que por trás daquela aparência horrível, se esconde um ser frágil, com medo de todos e de tudo.


O autor também poderia estar se vitimizando diante da opressão do velho pai, da família e do capital diante do homem moderno, ao se transformar em inseto. Tornou-se algo patético e sem sentido (ou objetivo para a sociedade), enfim, um inseto! Talvez seja uma forma de mostrar aos homens que eles mesmos já se transformaram em algo, que não é mais o ser humano. Já não somos mais homens, mas monstros. Cada um de nós é monstro! Ou talvez sejamos pior do que monstros. Ou aliás, talvez sejamos pior do que a família de Gregor. Em certo modo, Kafka tenta infelizmente dizer a concepção contrária a que relatou a velha máxima de Chaplin: “Não sóis máquina, homem, é que sóis!”. Kafka nos diria o contrário ou o igual? “Não sóis inseto, homem, é que sóis!” ou, “Não sóis homem, inseto, é que sóis!”? Fica a grande dúvida.


Na primeira manhã, quando acorda e tem que lidar com o chefe imediato sobre seu atraso de dez minutos, mesmo sendo um funcionário exemplar, Kafka está nos dizendo da intromissão do patrão na vida do trabalhador (algo que naqueles tempos de jornadas de trabalho provavelmente poderiam alcançar as 12, 14 ou 16 horas diárias tranquilamente). Mas essa realidade, hoje, mais do que nunca, principalmente com a Internet, volta a se tornar ainda mais precária como antigamente. Esse desrespeito na vida do trabalhador é sinônimo de um mundo que desrespeita a todos os oprimidos a muitos séculos ou milênios.


Sua relação com a irmã é de amor e cuidados por parte de Gregor (o personagem que incorpora o autor), mas é de ódio também por parte da irmã que o vê como um grande fardo a ser carregado. Porém, antes da transformação de Gregor, todos o amavam e o tratavam bem na família pelo mesmo ser o responsável pelo sustento da mesma. A partir do momento em que ele perde o emprego, se torna um peso aos seus familiares como um vagabundo que pra nada presta e somente prejuízos a família causa. Esta passagem também nos remete a idéia da degeneração dos princípios de solidariedade e amor entre as pessoas. O que vale entre os homens é o que você possui e não seu caráter, atitude ou personalidade.


Outra passagem interessante na obra é o momento em que Gregor irá se alimentar. Dias antes da transformação, o autor irá dizer que o queijo que estava a disposição da família para ser degustado, estava em más condições. Depois de matamorfoseado, ao se deparar com uma série de alimentos trazidos pela irmã, o primeiro que ele escolhe é justamente aquele queijo que ele mesmo havia condenado como impróprio para consumo. Esta passagem nos lembra a canção “Metamorfose ambulante” de Raul Seixas. Ter a liberdade de ser você mesmo. De poder escolher uma coisa hoje e amanhã escolher completamente outra coisa. As vezes até contrariamente ao que se havia previamente escolhido. Esta liberdade de escolha ou o que conhecemos como livre-arbítrio, é sinônimo da liberdade subjetiva de cada ser humano que deve ser respeitada. Provavelmente a grande pergunta que Kafka gostaria de nos dizer é: Como respeitar o homem nesta sociedade de desrespeitos e injustiças? Ou como podemos ser respeitados nesta sociedade ou neste sistema?


Voltando ao queijo, ele aceitou o alimento estragado pois provavelmente já não se sentia digno de se alimentar de algo bom. A desumanização afeta até mesmo a vítima, fazendo a achar que não vale nada ou que não se deve desperdiçar bons alimentos com pessoas ruins. Ou seria de fato uma tentativa do autor mostrar que ele já não era mais humano, mas uma barata mesmo...


Sua morte ao término da obra, ao invés de causar espanto ou dor de seus parentes ou pais, causou um sentimento de alívio nos mesmos. O fato destes saírem em seguida para comemorarem o ocorrido, demonstra a frieza típica no comportamento dos indivíduos na atualidade. Nos lembra “Matou a família e foi ao cinema”.


Ao que parece, Kafka quer nos dar um alerta, ou um grito de desespero diante desta desumana situação. Ou revemos a atitude nossa de cada dia com os demais cidadãos de nossas sociedades (e isso implica mudanças radicais nos modos econômicos, políticos e culturais de vida – sem os quais não há respeito possível entre os homens), ou estaremos próximos da barbárie. Kafka fez uma leitura muito sensata de seu tempo e do nosso também antevendo fatos terríveis no futuro. Alguns anos após a publicação de sua obra e de sua morte, inicia-se a grande barbárie do século XX: a II Guerra e o Holocausto.

Célebre frase de Tolstoi...